| Em 18/10/2018

As viagens do imperador brasileiro pelo mundo

O desejo de conhecer outros países e culturas era um sonho antigo do imperador Pedro II (1825-1891). Com uma vida de muito estudo, regrada desde cedo por uma disciplina espartana, e as responsabilidades de quem assumiu o governo do País aos quinze anos incompletos, ele não teve tempo de concretizar na juventude o sonho dourado dos moços pertencentes à elite imperial, que costumavam tirar um ano sabático para viajar pela Europa e, assim, ampliar seus horizontes. “Quando completou 36 anos, Pedro II lamentava que, se o seu pai fosse vivo, teria ocupado uma cadeira no Senado e poderia ter corrido o mundo”, contou a historiadora Lucia Maria Paschoal Guimarães, do Laboratório Redes de Poder e Relações Culturais, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Para a realização de suas pesquisas, Lúcia conta com apoio da FAPERJ, por meio do programa Cientista do Nosso Estado.

Professora titular da graduação em História e do Programa de Pós-graduação em História Política da Uerj, ela investiga há quatro anos em acervos diversos, no Brasil e no exterior, documentos e registros de época sobre as viagens ao estrangeiro realizadas pelo imperador Pedro II, que traduzam um pouco do espírito da sociedade no século XIX. “A cultura de viajar desenvolveu-se entre os membros da aristocracia brasileira no correr dos anos oitocentos, e até mesmo entre aqueles que não dispunham de muitos recursos. Realizar um grand tour pela Europa era visto como uma forma de complementar a educação. Assim, por exemplo, fizeram os bacharéis Joaquim Nabuco e José Maria da Silva Paranhos Júnior, o futuro Barão do Rio Branco”, disse Lucia. “Essa cultura coletiva de viagem floresceu no século XVIII e tomou formidável impulso no XIX, com o aperfeiçoamento dos meios de transporte e de comunicação”, acrescentou.

Homem de vasta cultura e erudição – sabia línguas clássicas, sânscrito e hebraico, e um dos seus passatempos era pesquisar sobre o Egito antigo –, Dom Pedro II concretizou o sonho de viajar pelo mundo apenas na vida adulta. Durante o seu reinado, realizou três excursões, com partidas nos anos de 1871, 1876 e 1887. Circulou por quatro continentes. Visitou países da Europa, da América do Norte, do Oriente Próximo e do norte da África. Daí o tema do projeto de pesquisa de Lucia, intitulado Um viajante incansável: D. Pedro II no exterior (1871-1891). “O objetivo do estudo é examinar as excursões empreendidas pelo monarca como um campo de investigação próprio, a partir das anotações por ele deixadas nos seus diários e demais papéis afins, como rascunhos de itinerários, mapas, correspondências e notas dispersas. Essas fontes permitem identificar a sua familiaridade com a cultura de viagem oitocentista, que procurava combinar o lazer e com a instrução. Ao mesmo tempo, ajudam a compreender as práticas e representações da sociedade da época”, resumiu.

O primeiro tour de Pedro II se deu pela Europa (onde visitou países como Portugal, Inglaterra, Bélgica, Austro-Hungria e Itália) e pelo Egito. A decisão de viajar foi tomada após a notícia da morte precoce de sua filha Leopoldina, em Viena, vítima de tifo. “Ele tinha 46 anos quando fez a sua primeira excursão ao exterior, coisa que os membros da elite brasileira faziam aos vinte”, informou a historiadora. Teve a chance de finalmente ir a Portugal, onde conheceu o túmulo do seu pai, cujo corpo estava em São Vicente de Fora, em Lisboa – hoje está no Museu do Ipiranga, em São Paulo, exceto o coração, que continua na cidade do Porto. Essa excursão foi alvo de críticas de adversários políticos, inclusive do escritor José de Alencar, pois havia se passado menos de um ano do fim da Guerra do Paraguai e o clima era de disputas em torno da tramitação da Lei do Ventre Livre. “A lei foi aprovada durante essa viagem de Pedro II, sancionada pela princesa Isabel”, contextualizou.

Suas viagens não eram oficiais e ele as custeava com recursos próprios. Apresentava-se socialmente como Pedro de Alcântara. Vestia-se com roupas civis e carregava a própria mala. Conversava com estranhos, usava transporte público e passeava a pé pelas ruas, apesar de ter uma pequena comitiva que o acompanhava nos seus périplos. “Ora, essas atitudes do monarca causavam estranheza, sobretudo nas cortes europeias, cujos soberanos costumavam envergar uniformes militares e não se misturavam com plebeus. Em Lisboa, o comportamento de D. Pedro II mereceu a reprimenda de alguns publicistas, como o caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro, que também o censurou por se internar no lazareto às margens do rio Tejo, junto com os demais passageiros do Douro, navio que o transportou para Portugal, abrindo mão das acomodações especiais que seu sobrinho, o rei Dom Luís, mandara preparar para acolhê-lo no período de isolamento. A quarentena era obrigatória para viajantes que procediam de países onde havia febre amarela”, disse.

A segunda excursão foi marcada pela sua ida aos Estados Unidos, quando visitou Nova York, San Francisco, Nova Orléans e Washington, entre outras cidades, tornando-se uma figura popular. Ao contrário do que ocorreu em Lisboa, sua postura despojada foi bem aceita nos Estados Unidos, que já era uma república. “Logo ganhou o apelido de yankee na imprensa americana. Ele era uma figura interessante para a época”, afirmou a historiadora.

Pedro II abriu a Exposição Universal da Filadélfia, ao lado do presidente dos Estados Unidos, Ulysses Grant, em 25 de maio de 1876, nas comemorações do primeiro centenário da independência americana. Foi nessa ocasião que conheceu Graham Bell, o inventor do telefone. O imperador testou a engenhoca que revolucionaria a comunicação e, admirado, fez questão de que o Brasil fosse um dos primeiros países do mundo a possuir um telefone. “Nesse sentido, cabe também lembrar outro resultado positivo para o desenvolvimento científico brasileiro, decorrente dessas excursões: em 1871, em sua passagem pela França, quando visitou a Academia de Ciências de Paris, pediu ao geólogo Auguste Daubrée que elaborasse um plano, indicando a melhor maneira de conhecer e explorar as riquezas minerais do Império. A criação da Escola de Minas de Ouro Preto, em 1875, foi fruto desse contato”, pontuou Lucia.

De qualquer modo, depois de transitar pelos Estados Unidos e por parte do Canadá, Pedro II seguiu para a Europa, a Turquia e o Egito novamente, e chegou ao Oriente Médio, tendo percorrido Síria, Líbano e Palestina, incluindo Jerusalém no seu trajeto. Ele permaneceu no estrangeiro cerca de um ano e meio entre paradas e percursos feitos de trem, carruagem e navio.

Em 1887, o Imperador partiu mais uma vez para o exterior. Essa terceira viagem teve como motivação principal a recuperação da sua saúde. Diabético, foi aconselhado por seus médicos a passar uma temporada na Europa. “Dessa vez, Pedro II passou rapidamente por Portugal e pela Espanha, a caminho de Paris, onde se consultou com o ilustre médico Charcot. Em seguida, deslocou-se até a Alemanha, para de um período de repouso e cura nas águas termais de Baden-Baden”, lembrou a pesquisadora. Concluído o tratamento, voltou ao ritmo frenético das suas visitas, o que o debilitou novamente. Em maio de 1888, em Milão, adoeceu gravemente e esteve entre a vida e a morte. Naquela altura, a princesa Isabel assinava a Lei Áurea, que aboliu o trabalho escravo no Brasil.

Houve ainda uma quarta e derradeira viagem, rumo ao exílio, após a Proclamação da República, em 1889. Inicialmente, Dom Pedro II dirigiu-se para Portugal, mas logo depois da morte da imperatriz Thereza Christina, na cidade do Porto, fixou-se em Paris, onde viveu até os seus últimos dias, residindo em um quarto de hotel. “Apesar de o governo republicano ter oferecido uma pensão a Pedro II, ele a recusou e sustentou-se com a venda dos seus bens, que ficaram no Brasil”, afirmou Lucia.

Os diários das viagens realizadas por Dom Pedro II no Brasil e no exterior estão sob a guarda do Arquivo Histórico do Museu Imperial, de Petrópolis. Em 2013, foram incluídos no Programa Memória do Mundo, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). As anotações dos seus giros pelo estrangeiro perfazem quatorze cadernetas, boa parte delas ilustrada com desenhos feitos de próprio punho. “A coleção, contudo, não deve estar completa, pois faltam muitos apontamentos relativos a diversas localidades por onde se sabe que ele circulou. Para suprir tais lacunas, é preciso recorrer aos memorialistas, a fontes da imprensa e à correspondência do soberano, entre outros testemunhos, o que demanda expandir a investigação”, observa Lucia. Acima de tudo, os relatos deixados por D. Pedro II são um retrato do século XIX, captados pelo olhar curioso de um imperador dos trópicos, atento aos novos costumes e às diversas culturas com as quais travou contato. “Apesar de terem sido viagens com objetivos pessoais, elas acabaram sendo importantes para dar visibilidade ao Império Brasileiro e torná-lo conhecido mundo afora”, concluiu.

Fonte: Comunicação Faperj (texto: Débora Motta).