Nas pegadas do passado: pesquisa ajuda a desvendar como era a vida há milhões de anos

Uma combinação de fatores, como o clima quente e seco em alguns momentos do passado, e a abundância de rochas calcárias que só existem na região, transformaram vários pontos do Nordeste em importantes depósitos de vestígios da flora e fauna que habitaram a área ao longo de milhões de anos. A bacia do Parnaíba, por exemplo, exibe registros dessa história desde a era paleozoica, a partir de 500 milhões de anos, até a metade da era mesozoica, por volta de 100 milhões de anos. Durante todo esse tempo, foram muitas as mudanças por que passou toda aquela região, que viveu, como todo o planeta, a Era do Gelo e o surgimento e a extinção de animais. Além disso, viu chegar o degelo e as transformações locais, que foram tornando as áreas de terra firme em grandes savanas de clima seco e árido, habitadas por preguiças-gigantes, mastodontes, tatus-gigantes e tigres dentes-de-sabre. Anfíbios basais e peixes povoavam ambientes aquáticos continentais e as águas rasas dos mares que cobriam grandes extensões de plataforma marinha.  Era um ambiente para os fortes!

Para reconstituir esse cenário, pesquisadores, como Hermínio Ismael de Araújo Júnior, do Departamento de Estratigrafia e Paleontologia, da Faculdade de Geologia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), recorrem a técnicas da tafonomia. “Estudamos os processos biológicos e geológicos que se sucedem à morte de um organismo vivo até sua transformação em fóssil. E com a paleoecologia, pesquisamos como seriam os ecossistemas e o modo de vida dos animais extintos”, explica Araújo Júnior, Jovem Cientista do Nosso Estado, da Faperj.  Ele e sua equipe se ocupam em estudar justamente como se formaram os vários sítios paleontológicos nordestinos, onde permaneceram acumulados restos dos diferentes vertebrados que habitaram a região durante eras distintas.

Pelo que já constataram os especialistas, o Nordeste do País é um caso único. “No Sul do Brasil, na bacia do Paraná – uma das principais bacias sedimentares brasileiras – que abrange principalmente áreas do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e São Paulo –, apesar de idade semelhante à bacia do Parnaíba, não há registros de achados tão expressivos.”

Por isso mesmo, o foco de seu projeto são doze sítios paleontológicos do Nordeste.  “Alguns deles são depósitos do período quaternário – parte da era cenozoica, que teve início há cerca de 2,6 milhões de anos e perdura até hoje. Esses vestígios permaneceram enterrados em depressões, denominadas tanques naturais, preenchidas com fósseis e sedimentos do quaternário. Lá estão vertebrados, especialmente mamíferos da Era do Gelo, que ali permaneceram naturalmente preservados, devido às condições da região. E apesar de esses achados terem sido descobertos há mais de 200 anos, ainda estamos distantes de entender como se deu esse processo de preservação”, diz o pesquisador.

Como explica Araújo Júnior, a Era do Gelo, fria e seca, foi intercalada por períodos interglaciais, de clima mais quente e úmido. “A cada uma dessas mudanças de clima, sucedia-se uma pequena mortandade da fauna que não conseguia se adaptar a essas alterações”, diz o pesquisador. Muitos desses animais migravam para os locais de fontes de água, mas vários deles terminavam morrendo no entorno – tal como ainda ocorre hoje em diversas regiões áridas do mundo. Enxurradas acabavam transportando esses restos de animais mortos para o interior dos tanques.

“Muito da fauna que vemos hoje em lugares do interior do Brasil – veados, onças, antas, capivaras –, já existia no período quaternário. Podemos dizer que são remanescentes daquela época. O modo como a fauna reage às alterações ambientais é, para nós, um ótimo indicador das mudanças climáticas”, garante Araújo Júnior.

A partir dos fósseis encontrados, o pesquisador quer investigar a real causa da mortandade da fauna. “Até que ponto o motivo foi as alterações climáticas e até que ponto essa mortandade se deu pela influência da chegada do homem às Américas.” Responder a esta pergunta será determinante para saber há quanto tempo a presença humana está no continente e nos ajudará a traçar mais um período dessa história”, fala. Isso porque, enquanto na América do Norte e Europa muitos fósseis de animais trazem as marcas dos instrumentos que os mataram, e há mesmo sítios que se depreende que foram locais de matança, na América do Sul, quase não há registros semelhantes. “Isso nos leva a supor que talvez o homem tenha chegado mais tarde às Américas – numa época em que os animais já estavam morrendo por influência do clima –, ou que esse humano ainda não havia desenvolvido técnicas de matança.”

Baseada em Mossoró, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), a equipe vem se deslocando para o Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia e o próprio Rio Grande do Norte, onde há quatro sítios paleontológicos para visitar. “No Ceará e no Maranhão, esses sítios, da era mesozoica, são de ambientes fluviais, que preservam restos de dinossauros, peixes e crocodilos”, explica. Para Araújo Júnior, esses estudos são importantes não apenas pelas informações que revelam, mas também por funcionar como subsídios para novas pesquisas.

“Quero que o meu trabalho seja o pontapé inicial para novas dissertações de mestrado e teses de doutorado. E que não fique apenas no trabalho científico, mas que contribua para o desenvolvimento da comunidade local”, diz. Ele explica como isso acontece. “Antes de mais nada, foram os habitantes da região que nos ajudaram a chegar até esses sítios, porque eles é que sabiam a exata localização. Nossa presença também despertou a curiosidade dos moradores dos municípios próximos e por isso mesmo pretendemos realizar palestras explicando a importância dos fósseis e, por tabela, dos sítios paleontológicos e de toda aquela área. Muitos deles também ofereceram ajuda e terminaram contribuindo para o trabalho de escavação. Com isso, temos o envolvimento da comunidade no trabalho. Conhecer e saber da importância é o primeiro passo para se comprometer com a preservação. Além do mais, tudo isso certamente atrairá turistas para a região, gerando alternativas de trabalho e renda para os moradores.”  O começo de uma nova fase para aqueles municípios nordestinos.

Fonte: Agência Fapesp – Reportagem originalmente publicada em Rio Pesquisa, Ano XI, Nº 42 (abril de 2018).

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