Pesquisadores brasileiros consolidam a ciência oceânica na Antártica

A pesquisa brasileira na Antártica alcançou um feito de repercussão internacional. A revista científica Deep-Sea Research, a mais importante publicação sobre oceanografia e pesquisa em mar profundo, lançou um volume especial inteiramente dedicado aos 15 anos da pesquisa em oceanos na Antártica realizada pelo Grupo de Oceanografia de Altas Latitudes (Goal), liderado pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg).

“Neste período de 15 anos, o Goal construiu um banco de dados único, o que tornou possível a idealização e materialização desta publicação, que é um marco para a oceanografia nacional”, explica o pesquisador Mauricio Mata, editor convidado da revista juntamente com os cientistas Carlos Mendes, Rodrigo Kerr e Eduardo Secchi.

Intitulado Processos oceanográficos e respostas biológicas em torno da Península Antártica Norte: uma contribuição de 15 anos do Grupo de Oceanografia de Altas Latitudes, o volume é resultado da presença brasileira na porção norte da península Antártica, englobando os estreitos de Bransfield e Gerlache, porção noroeste do Mar de Weddell e o sul do Estreito de Drake.

O volume traz uma coletânea de dois artigos introdutórios e 20 trabalhos científicos que reportam importantes resultados, desde a oceanografia clássica (nas suas áreas de biologia, química e física), passando por aspectos das interações entre o oceano-atmosfera-criosfera, biogeoquímica marinha até biologia e ecologia de mamíferos marinhos.

Segundo Mata, um dos motivos para a escolha da porção norte da península Antártica foi a estrutura oferecida pelo Programa Antártico Brasileiro (Proantar). “Concentramos as pesquisas na porção norte por ser a principal área de atuação do Proantar e nós, os pesquisadores brasileiros, nos beneficiamos desta estrutura”, explicou.

A cada ano, cerca de 300 pesquisadores realizam estudos ligados aos fenômenos da alta atmosfera, como temperatura e ondas gravitacionais, à dinâmica do buraco de ozônio atmosférico e dos raios ultravioleta, e aos parâmetros atmosféricos de superfície, além de inventários de fauna e flora locais (terrestres e marinhos), qualidade do ar e impactos ambientais locais (contaminação de solos).

Para o coordenador-geral de Oceanos, Antártica e Geociências do MCTIC, Andrei Polejack, “a publicação é um marco que representa a maturidade de nossos pesquisadores antárticos e resultado direto de nossos investimentos no Proantar”.

“O Goal e o Proantar são protagonistas da pesquisa na região. Em termos de oceanografia, somos protagonistas em uma região com presença de Estados Unidos, Inglaterra, Espanha”, acrescentou Mauricio Mata.

Estação Antártica Comandante Ferraz

De acordo com Andrei Polejack, a reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), que deve estar concluída nos próximos meses, permitirá a retomada da da pesquisa brasileira na Antártica em “plena força”. Com uma área de aproximadamente 4,5 mil metros quadrados, a estação contará com 17 laboratórios, ultrafreezers para armazenamento de amostras e materiais usados nas atividades científicas, setor de saúde, biblioteca e sala de estar. A área de pesquisa científica foi projetada para atender a uma multiplicidade de exigências, com prioridade para os programas científicos previstos no Plano de Ação para a Pesquisa Brasileira na Antártica.

Mudanças climáticas
Além da estrutura do Proantar, os integrantes do Goal escolheram a porção norte da península Antártica por ser uma área sensível do ponto de vista climático e que, recentemente, têm apresentado diversas alterações nas suas características físicas, biogeoquímicas e na sua biota associada.

“A Antártica e seus ambientes são um grande laboratório natural e muito sensível às mudanças climáticas. Em Brasília, por exemplo, caso a temperatura aumente 1 grau, você não perceberá tanta diferença, mas na Antártica, há uma alteração nos ecossistemas. Por isso a nossa pesquisa lá é tão importante”, ressaltou Maurício Mata.

Fonte: MCTIC.