| Em 03/04/2020

Pesquisadora da UFRJ explica os efeitos da Covid-19 nos pulmões

A capacidade de contágio do Sars-COV-2, vírus relacionado à atual pandemia, é maior que a de outros tipos de coronavírus (Foto: Pixabay)

Os efeitos do coronavírus nos pulmões dos pacientes infectados ainda são pouco conhecidos. Pesquisas que estão em curso em diversos países indicam, porém, que eles são os órgãos mais atingidos pela doença e podem até sofrer lesões permanentes. A médica Patricia Rocco, que é chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar, vinculado ao Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e professora titular da universidade, explica que a maior parte dos indivíduos com testes positivos para a doença Covid-19 apresenta sintomas moderados e leves, ou é assintomática. Mas alerta que, para uma parcela da população de infectados, a doença pode causar males graves nos pulmões e fibrose pulmonar.

“Para aproximadamente 5% dos pacientes infectados, considerando os casos de diversos países ao redor do mundo, os efeitos pulmonares são mais severos. Eles evoluem de uma pneumonia grave para um quadro de falência respiratória aguda. Se considerarmos apenas a Itália, esse número é de cerca de 15%, ou seja, a cada cem pacientes, 15 evoluem para esse quadro”, explicou Patricia, que vem recebendo o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ ao longo dos últimos anos para a realização dos seus estudos, e atualmente integra a lista de contemplados no programa Cientista do Nosso Estado, da Fundação.

O que se sabe até o momento é que muitos desses pacientes apresentam comorbidades, ou seja, fatores de risco como hipertensão arterial, diabetes, obesidade, tabagismo, doenças respiratórias e idade. Ela destaca, contudo, que o fator idade não é determinante. “Há casos de pessoas muito jovens morrendo. Realmente é uma doença grave para idosos, mas as comorbidades são fatores de risco para a gravidade da doença e há casos de pacientes jovens e saudáveis que faleceram. O que temos observado por enquanto no Brasil é uma variabilidade na faixa etária dos pacientes maior do que na Itália, por exemplo, onde a população é mais idosa, e a média dos internados em CTIs é de 58 anos. Jovem ou não, se a pessoa tiver uma sequela grave, uma fibrose no pulmão, pode ficar com a capacidade respiratória comprometida para o resto da vida”, alertou.

Os pacientes com doenças respiratórias prévias são um dos grupos de risco significativos para o coronavírus. Pessoas com asma, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica, entre outros, já apresentam alterações respiratórias que se agravam ainda mais com a Covid-19. “Elas apresentam pulmões previamente inflamados, o que pode potencializar o processo inflamatório da infecção, favorecendo piores desfechos. Além disso, esses pacientes usualmente tomam drogas imunodepressoras, que por si só podem favorecer a replicação viral e acelerar a progressão da doença”, detalhou.

A pesquisadora destaca que o mais importante é que a população se conscientize cada vez mais e fique em casa, e que os governos adotem medidas de isolamento social. “A ciência ainda não pode dizer qual será o nível de lesão nos pulmões dos pacientes infectados pela doença aqui no Brasil. Observando os casos na Itália e na China, sabemos que muitos pacientes que receberam alta médica não apresentaram o pulmão cem por cento. Não sabemos o percentual que vai apresentar fibrose no pulmão”, ressaltou.

Por mais que seja cedo para estimativas de como a doença danifica o pulmão, sabe-se que as gotículas da saliva ou espirro carregam o coronavírus pelo ar e se depositam nas mucosas das pessoas. Lá, ele tem auxílio de duas enzimas para se internalizar no corpo e poder se multiplicar, atacando o organismo. Autópsias realizadas em indivíduos que faleceram pela doença mostraram que o vírus ataca também as vias aéreas centrais, podendo atingir os alvéolos. No epitélio de vias aéreas, tem se observado aumento da secreção de muco, com obstrução de pequenas vias. Uma vez ferindo as células epiteliais, existe uma resposta inflamatória aguda que lesa os pulmões e obriga que o paciente seja colocado em ventilação mecânica.

Segundo a professora, as informações de contágio e funcionamento do Sars-COV-2, vírus que causa a doença, são estudadas por meio de modelos de outros coronavírus, como o que causa a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars). “Até o momento não se conseguiu desenvolver modelos experimentais de Covid-19 em camundongos e foi publicado recentemente um modelo em primatas que mostra sinais clínicos e replicação viral semelhante ao que ocorre no ser humano”, disse. “O Sars-COV-2 tem uma capacidade de contágio maior que a dos outros coronavírus, antecessores”, acrescentou.

Patricia Rocco: a médica alerta que medidas de isolamento social são importantes nesse momento (Foto: Arquivo pessoal)

Patricia Rocco é membro titular da Academia Nacional de Medicina – sendo uma das cinco mulheres que integram a ANM –, onde ocupa a cadeira que já foi de D. Pedro II. Ela integra, igualmente, a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Pesquisadora nível 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ela coordena no IBCCF/UFRJ o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas para doenças do pulmão, incluindo uma série de pesquisas com células-tronco.

 

Fonte:  FAPERJ (Texto: Débora Motta)

 

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