| Em 06/05/2020

Pesquisadora da Universidade Federal Fluminense defende o combate à anticiência e às fake news

A pesquisa mostra que, na disputa pela informação, a ciência tem sido o principal alvo dos ataques (Imagem: Divulgação)

A professora Thaiane Moreira de Oliveira vem, há alguns anos, se dedicando a pesquisar o papel da ciência no combate à desinformação. O que ela não esperava era que um evento tão dramático como a pandemia mundial da Covid-19 fosse promover um cenário tão intenso para sua pesquisa. Nos últimos meses, seu trabalho passou a ocupar a linha de frente entre os estudos que vêm contribuindo para informar a população sobre o coronavírus, combater as fake news na ciência e divulgar fontes confiáveis e legítimas de informação científica.

Doutora em Comunicação Social e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), a pesquisadora lembra que o movimento anticiência não é novo e vem à tona de tempos em tempos, tendo recrudescido nos últimos anos. Ela destaca que em vários países, lideranças antes desprezadas e marginalizadas por suas ideias, hoje estão ocupando cargos no alto escalão dos governos e liderando as tomadas de decisões. Segundo Thaiane, de uns três anos para cá a disputa pela informação se acirrou, e a ciência tem sido o principal alvo dos ataques. Nos últimos meses, justamente num momento em que a população depende de informações confiáveis para se prevenir da Covid-19, o movimento anticiência divulga notícias falsas que pode colocar em risco a saúde da população. “Diversos líderes que negam o conhecimento científico e propagam teorias da conspiração globais estão colaborando para o avanço da insensatez e da desinformação”, sublinha.

Seu projeto intitulado As disputas na disseminação de Fake Sciences: Plataforma de Educação e Divulgação para enfrentamento da desinformação científica foi contemplado no edital de Auxílio ao Pesquisador Recém-Contratado – (ARC) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ. Ao longo da quarentena imposta a países de todos os continentes, as notícias falsas já provocaram pânico e aglomerações decorrentes de movimentos inesperados de pessoas em busca de formar estoques de produtos de higiene – como álcool em gel –, alimentos e remédios para garantir períodos de isolamento. Ela recorda um dos exemplos mais recentes, envolvendo o medicamento “cloroquina”, recomendado para tratar a Covid-19 sem a devida validação científica, que desapareceu das prateleiras das farmácias e cujos efeitos colaterais vêm fazendo mais vítimas do que recuperados pelo mundo.

A pesquisadora também aponta que em momentos críticos como o que estamos enfrentando com políticas de quarentena, a crise da democracia tem se acentuado. Ressalta que o reconhecimento de autoridades, entre elas a científica, era uma característica de um modelo de democracia vigente. “Hoje, diante de um momento em que os direitos mais básicos estão sendo retirados como medidas eficazes de prevenção de crescimento do contágio e do colapso do sistema de saúde, governos de diferentes partes do mundo estão aproveitando para instaurar regimes autoritários e violar os direitos dos cidadãos”, alerta a cientista. Como exemplo, ela cita episódio ocorrido recentemente, após a demissão do ministro da Justiça e do diretor da Polícia Federal (PF), em que um ministro do Supremo Tribunal Federal determinou a manutenção dos delegados da PF envolvidos no inquérito de apuração das fake news contra integrantes daquela corte e da realização de “atos contra a democracia”.

A partir de métodos mistos crossplafarma, que combinam estudos qualitativos e ARS no Whatsapp, Facebook e YouTube, a imagem da rede gerada em Gephi mostra como os temas vacina, terra plana e nova ordem mundial se relacionam.

De acordo com Thaiane, além de governos, os perigos sobre o regime democrático também estão presentes nas ações de regulação promovidas pelas plataformas de mídias sociais. Plataformas como Facebook, Youtube e Twitter através de lógicas algorítmicas pouco transparentes, que guardam verdadeiras caixas pretas sobre como funcionam, foram fundamentais para dar amplitude e visibilidade a fatos alternativos e teorias da conspiração sob a bandeira de defesa da democracia e de liberdades individuais. Ela aponta que, hoje, essas plataformas estão buscando retirar conteúdos propagados nesses espaços, o que também representa um perigo à democracia. “Quem irá definir o que é falso e o que é verdade? É necessário a criação de grupos independentes, externos, multidisciplinares, transparentes e com ampla participação da sociedade civil para que possamos garantir um dos poucos direitos que nos resta, que é o direito à informação”, pondera.

Dentre os esforços para compreender, tratar e prevenir a Covid-19, Thaiane ressalta o empenho dos pesquisadores para publicarem suas experiências o mais rápido possível, em espaços abertos e compartilhados, a fim de que outros cientistas possam ter acesso aos estudos e interagirem. Em sua opinião, a cooperação internacional e o conhecimento aberto têm sido fundamentais nos avanços das pesquisas sobre a Sars-CoV-2. Para democratizar as informações fundamentais sobre a pandemia, a pesquisadora defende o acesso gratuito ao conteúdo produzido pela mídia, sem a cobrança de assinatura pelo acesso às notícias relacionadas ao coronavírus. Da mesma forma, ela é a favor do livre acesso ao conhecimento científico, fonte de lucro para editoras comerciais que comandam esse mercado editorial. “A única forma de enfrentarmos a pandemia mundial é abrindo e compartilhando os conhecimentos adquiridos em outros países, antes que o vírus avance ainda mais”, afirma.

A pesquisadora acredita que a melhor prevenção contra as fake news é ter acesso ao conteúdo produzido pelas instituições reconhecidamente comprometidas com a pesquisa científica, como as universidades e instituições de pesquisa, mas reconhece que a confiança é um problema a ser enfrentado. Em meados de 2019, o resultado da pesquisa “Wellcome Global Monitor 2018”, da Gallup, surpreendeu muitos brasileiros, revelando que 35% da população dizia desconfiar da ciência, e 23% acreditavam que a produção científica não beneficia a sociedade. A pesquisa indicava ainda que 50% dos entrevistados alegavam que a ciência discordava da sua religião e que 75% destes se tivessem que escolher entre uma recomendação da ciência ou da religião, escolheriam a religião.

Entre as iniciativas para combater a disseminação das notícias falsas, ela destaca que algumas agências vêm se dedicando a checar as notícias e a origem dos fatos. Mas aponta que essas ferramentas têm menos alcance do que a desinformação, que causa um estrago muito maior do que a checagem de fatos, pois o que a pessoa retém é a primeira informação recebida. Além disso, a coordenadora do Fórum de Periódicos e Comunicação Científica ressalta que essas agências também são passíveis de dúvidas, principalmente por parte de pessoas que já carregam essa descrença generalizada quanto às instituições, já que muitas organizações midiáticas tradicionais estão envolvidas com essas iniciativas.

Thaiane: para a professora e pesquisadora da UFF, a crítica de figuras públicas à mídia e à ciência tem sido um catalisador da desconfiança social generalizada.

A pesquisadora também defende a abertura de dados e o investimento em educação, desde a base, para aumentar a capacidade da população em participar de decisões políticas. Mas admite, no entanto, que este é um grande desafio, devido aos altos índices de exclusão digital. Para compreender melhor como os cidadãos consomem a informação, quais tipos de discursos são propagados, que dúvidas surgem e como respondê-las, Thaiane indicou um de seus alunos ao Programa de Iniciação Científica (IC) da FAPERJ, e, contemplada com a bolsa, darão sequência aos estudos com o tema Mídia e Ciências na escola: estratégias para enfrentar a desinformação científica e midiática nas escolas do estado do Rio de Janeiro.

Valendo-se da Teoria da Comunicação, a professora ressalta: “Como comunicadores da ciência, precisamos traçar estratégias que reforcem o elo de confiança entre o emissor e o receptor, pois estamos vivendo um momento crucial para a sociedade”, diz.  Porém, ela acredita que as redes de confiança estão vulneráveis devido a inúmeros fatores, e que são conflitantes a partir do momento em que iniciam as interações com os sujeitos nas plataformas de mídias sociais. Isso porque ao mesmo tempo em que o indivíduo tem autonomia para buscar informações, é monitorado por algoritmos que investigam seu comportamento e limitam o conteúdo a ser disponibilizado. A cientista enfatiza que o excesso de informações a que estamos expostos nos deixa com a falsa sensação de estarmos recebendo notícias atualizadas a todo momento, seja pelas mídias sociais ou tradicionais.

Segundo ela, pesquisas multidisciplinares indicam que a multiplicação de informações equivocadas, mesmo quando o objetivo é corrigi-las, gera um efeito similar ao da desinformação. “A população quer buscar informações, entender as questões que afetam sua vida e participar do processo de produção de conhecimento. Porém, a crítica de figuras públicas à mídia e à ciência tem agido como catalisadora do sentimento de desconfiança generalizado que existe na sociedade em relação aos meios de comunicação”, explica. Para a pesquisadora, essa estratégia utilizada por figuras públicas para desmoralizar instituições que deveriam ser promotoras de conhecimento, é utilizada para alcançar aqueles que compartilham esses mesmos valores de crença pessoal, ancorada por noções de liberdade individual, mesmo que essa liberdade venha ferir o direito do outro. “Não se trata de liberdade, mas de individualismo indo de encontro aos avanços de ideias progressistas baseadas em valores sobre a igualdade”, complementa Thaiane.

Ela reforça que a informação científica está no centro de uma complexa disputa política e ideológica. Diante disso, defende a importância dos pesquisadores que se dedicam a investigar a circulação de desinformação e reconhecem qual é o papel que a própria ciência e a mídia, entre outras instituições promotoras de conhecimento, tiveram até chegarmos a esse sentimento generalizado de desconfiança sobre as instituições. Thaiane conclui que por mais que haja um esforço dos cientistas, jornalistas especializados em ciência, e outros profissionais engajados em promover e disseminar o conhecimento nesse momento complicado, caberá ao cidadão selecionar as informações que serão consumidas. “Procure saber qual é a origem de certas notícias, conheça a carreira de quem está assinando as matérias, leia seus trabalhos anteriores e sua trajetória na área em questão. Isto é fundamental para discernir qual informação é útil e qual se mostra duvidosa”, aconselha.

 

Fonte: FAPERJ (Texto: Paula Guatimosim)

 

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